sábado, 2 de janeiro de 2016

Doutrina Política: Social-Democracia

Por Odemir Silva

Histórico e Características Principais

Introdução
O que são doutrinas políticas contemporâneas?
Na perspectiva que aqui adotamos, são aquelas correntes de pensamento que inspiram e orientam os partidos políticos importantes – em termos de influência, voto e acesso ao poder – no mundo de hoje. Dito de outra maneira, aquelas correntes que definem os objetivos de partidos atuais e, em alguns casos, os meios recomendados para alcançar esses objetivos.
O critério, portanto, é prático. Não vamos discutir correntes de pensamento que alimentaram partidos fortes no passado, mas insignificantes no presente. Não vamos discutir, por exemplo, uma corrente conservadora, uma vez que hoje nenhum partido de peso defende o retorno à ordem econômica, social e política pré-moderna. Pela mesma razão, não discutiremos a corrente anarquista, uma vez que os partidos dessa tendência perderam peso, nos países onde ainda eram importantes, no período entre as duas guerras mundiais.
Um esclarecimento final é necessário. Grandes correntes de pensamento político não são objetos que possam ser estudados a partir de uma definição clara, unívoca, aceita por todos. Adversários e partidários têm interpretações diferentes de cada corrente, e mesmo no interior de cada uma delas encontramos divisões importantes. A seleção de assuntos e autores feita no curso é, portanto, necessariamente parcial. Escolhemos obras de autores consagrados que tratam de temas que a maior parte dos novos esquerdistas considera fundamentais. No entanto, outros temas e autores, talvez tão importantes quanto esses, ficaram de fora. Vamos discutir, para dizer de forma mais precisa, uma seleção de temas e autores importantes para esta corrente.
Assim, para que você possa melhor absorver o conteúdo desse curso e atender aos objetivos a que se propõe, encontra-se disponibilizado em PDF o livro Partidos políticos brasileiros. Programas e diretrizes doutrinárias, organizado por Nerione Nunes Cardoso Júnior, editado pelas Edições Técnicas do Senado Federal.
Social-Democracia
Ao final desta leitura esperamos que você possa:
 Distinguir as características principais da social-democracia;
 Indicar suas diferenças em relação ao socialismo;

Histórico e Características Principais
Para a análise da social-democracia, nesta unidade, tomaremos como texto base o conjunto de ensaios, já clássicos, de Adam Przeworski, reunidos, em 1985, sob o título Capitalismo e Social-Democracia.
Veremos, em sequência, nesta unidade:
 Origem da social-democracia;
 Estado de bem-estar social.
Qual a relevância do fenômeno social-democrata? Em primeiro lugar, independentemente de suas limitações e falhas, a social-democracia parece ser a forma predominante de organização política dos trabalhadores em condições de capitalismo democrático. Se o caminho da insurreição é excluído, seja por inviável, seja por não conduzir ao socialismo, a via social-democrata surge como alternativa natural aos que perseguem os objetivos socialistas. Críticas são necessárias, nessa perspectiva, basicamente como meio de correção e ajuste de rumos e políticas específicas, dado que o caminho geral, por exclusão, estaria afirmado. Apenas "corrigindo" a experiência social-democrata poderíamos chegar ao socialismo.
A própria ideia de analisar erros cometidos para aperfeiçoar as decisões posteriores implica uma concepção de história e política ausente em outras manifestações do pensamento socialista. Supõe a existência de condições objetivas que delimitam uma gama de opções possíveis, assim como a vontade livre, no interior dessa gama, de um operador político. Aceitar apenas a objetividade implica recusar a possibilidade de erros: a história leva necessariamente ao socialismo. Aceitar apenas a vontade, atitude comum nas diferentes correntes políticas que afirmam o "amadurecimento" completo das condições objetivas, implica dizer que a mudança não se realiza pela ausência de intenção de líderes e partidos políticos; não se realiza pela "traição", portanto. Traição é, segundo o autor, a forma consequente de ver a estratégia social-democrata em um mundo livre de restrições objetivas.
Na verdade, a social-democracia consiste num conjunto de escolhas políticas feitas em momentos cruciais. Outras opções eram possíveis e foram seguidas pelos "insurrecionalistas" de todos os matizes. Essas escolhas foram:
Primeira – promover o avanço do socialismo no interior do quadro das instituições políticas e sociais capitalistas;
Segunda – dirigir-se a um conjunto de classes sociais e não só aos operários como agentes da mudança; e;
Terceira – dedicar-se à luta pelas reformas parciais do sistema, de interesse imediato das classes trabalhadoras.
Esse leque de escolhas exclui, evidentemente, a chamada "ação direta", como forma única ou preferencial de luta, recusa o monopólio dos operários da condição de agentes da mudança e nega o caminho que se resume a preparar um momento singular de ruptura do sistema, como a insurreição ou a "greve geral revolucionária".
A decisão mais importante que precede historicamente às demais é a participação. Não se tratava de uma decisão óbvia, até porque o direito de voto permaneceu limitado, por muito tempo, segundo critérios de renda e propriedade. No quadro das democracias liberais de então, os operários não votavam, e toda sua manifestação política, até aquelas que reivindicavam o direito de voto, extravasava as instituições estabelecidas e constituía forma de ação direta.
A questão se põe com ênfase para o movimento no instante em que se dissipam as ilusões de uma mudança feita por fora da política, à maneira dos socialistas utópicos, a partir de colônias ou quistos socialistas que por simples efeito-demonstração se difundiriam, acabando por tomar conta do corpo capitalista. Desde esse momento, é necessário optar: ou se recusa a participação e se combatem as instituições, ou o voto é aceito como mais uma arma do arsenal dos trabalhadores.
A questão subjacente, de forma alguma trivial, é se a burguesia respeitaria o resultado de um processo democrático que contrariasse seus interesses vitais.
À vitória eleitoral socialista seguir-se-ia o golpe da reação? A dúvida perdurou por décadas, uma vez que em 1926, após seis décadas de debate, os social-democratas austríacos ainda se sentiam no dever de alertar que respeitariam a ordem constitucional, mas que a reação golpista da direita, caso ocorresse, seria reprimida de forma ditatorial.
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De qualquer maneira, no que respeita a essa questão, os anarquistas posicionaram-se de imediato contra sua participação. A seu ver, a miragem das eleições domesticaria o movimento dos trabalhadores, levando-o a abandonar seu propósito revolucionário.
A linhagem alternativa, que deu origem a socialistas e comunistas, optou pela participação. No início, sem muita expectativa: eleições eram vistas como terreno propício à propaganda e ao recrutamento de novos militantes; ou, no máximo, como indicador do ânimo dos trabalhadores para encarar a insurreição.
No entanto, a participação é mecanismo dotado de lógica própria, que não permite meio termo. No início, os socialistas participavam apenas das eleições; não faziam acordos relativos ao segundo turno ou à partilha de cargos das mesas dos parlamentos. Participar em governos de coalizão sequer era cogitado. Aos poucos, a consciência de que as regras do jogo constitucional deveriam ser aceitas ou recusadas na íntegra levou-os a fechar acordos, participar das mesas e, em 1924, a assumir o governo na Grã-Bretanha. Mesmo então, esse passo foi polêmico e teve que ser justificado com o argumento da experiência a se ganhar, necessária a um futuro governo suficientemente majoritário, capaz de implementar o programa de mudanças.
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Na verdade, à medida que a pura abstenção política e a participação restrita se revelavam inviáveis, os trabalhadores começaram a valer-se da estrutura partidária social-democrata para atender a seus interesses particulares de classe. Afinal, no capitalismo, os capitalistas participam diretamente das decisões relativas à economia, particularmente no que se refere à alocação produtiva do lucro e à distribuição do excedente entre salários e lucros. Nessas questões, "votam" todos os dias, produzindo tendências que revelam os efeitos combinados do conjunto das decisões individuais.
Já os trabalhadores, impossibilitados de atingir seus objetivos de forma direta no mercado, devem recorrer a instituições como sindicatos e partidos. Sendo assim, a democracia política e o sufrágio universal passam a ser tratados pelo movimento operário como corretores das disparidades distributivas que o mercado propicia.
Durante alguns anos conviveram ambas as táticas, a institucional e a ação considerada direta. Sem dúvida, contribuiu para a predominância da primeira opção o fato de as greves gerais deflagradas para a obtenção dos direitos políticos, o sufrágio universal masculino, haverem sido vitoriosas onde ocorreram, como na Bélgica e na Suécia. Ao mesmo tempo, todas as greves gerais desencadeadas com objetivos econômicos, com potencial para evoluir para uma situação de "greve geral revolucionária", entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, foram derrotadas, com perdas duradouras para o movimento operário.
Nas palavras de Kautsky, teórico e dirigente da social-democracia alemã, a própria luta econômica requer direitos políticos e “estes não caem do céu”. Ou seja, a participação era necessária. Tornava-se necessário ao partido organizar os trabalhadores como classe, ou seja, organizá-los para votar como trabalhadores.
A opção pela participação envolvia riscos. O consentimento dos trabalhadores às instituições políticas do capitalismo poderia levar a seu fim ou apenas contribuiria para reforçá-lo? Um claro antagonismo era percebido entre os objetivos estratégicos e táticos do movimento: a superação do capitalismo exigia um forte movimento de massas, mas um movimento de massas, por sua vez, exigia atenção e prioridade para reivindicações menores e mais prosaicas, ligadas ao cotidiano do trabalhador.
Outros complicadores apresentavam-se ao movimento social-democrata, segundo o autor. O voto coloca o eleitor na sua condição de indivíduo, sendo uma prática política que tende, portanto, a obscurecer o caráter de classe da ação política. O próprio instituto da representação constituía problema na tradição do movimento, problema que a democracia de conselhos ou comunas tendia a controlar com a eventual demissão de representantes e com o mandato imperativo. Mesmo o surgimento espontâneo desse tipo de democracia nas insurreições operárias conhecidas comprova a relação tensa entre o movimento e o instituto da representação.
Por outro lado, participar regularmente em eleições implicava, como ainda implica, construir uma máquina partidária eficiente, com uma burocracia forte que inevitavelmente passa a preponderar nas decisões partidárias, levando o movimento a uma tendência de aburguesamento. Além disso, a opção eleitoral tem como consequência lógica o abandono dos instrumentos característicos da ação direta. A continuidade do seu uso provoca a desconfiança e rejeição do eleitor, além de fazer pesar a suspeita de oportunismo: “voto quando somos maioria, insurreição quando somos minoria”.
Finalmente, o recurso continuado aos instrumentos da democracia fortaleceu a tendência no movimento a considerar o socialismo a sequência lógica da democracia, sua simples extensão para os planos econômico e social. A democracia passa então do status de instrumento de luta, de meio, para a consecução de um determinado fim, o socialismo, para o de um valor a ser preservado e ampliado na nova sociedade. A revolução operária não eliminaria a obra da Revolução Francesa, mas a terminaria.
É preciso assinalar a presença de um elemento de cálculo estratégico na adesão do movimento operário às regras do jogo eleitorais. Conforme a ortodoxia marxista, os operários viriam a constituir a maioria da população, em todos os países capitalistas. Afinal, para expandir-se, obedecendo a sua lógica imanente, o capitalismo precisava de um número crescente de operários. O sistema criava seus próprios coveiros, na conhecida expressão de Marx. Assim, cedo ou tarde chegaria o momento em que os partidos operários representariam a maioria da população e contariam com a grande maioria dos votos.
Nessa perspectiva, a questão da insurreição perde sentido, dado que o movimento encontrava-se fadado a tomar o poder pelo voto, em condições de sufrágio universal. Essa interpretação encontra fundamento até em algumas passagens de Engels, que afirmam a república democrática como a forma por excelência da ditadura do proletariado.
Os dados pareceram indicar durante muito tempo o acerto dessas previsões. Retirados da ilegalidade e conseguido o sufrágio universal, todos os partidos socialistas europeus viram sua votação crescer exponencialmente, entre o fim do século XIX e a segunda década do século XX. Entre 1905 e 1925, uma boa parte deles alcançou seu auge eleitoral, uma maioria relativa situada em torno dos 40% dos votos.
Até esse momento, convém lembrar, esses partidos dirigiam-se prioritária ou mesmo exclusivamente à classe operária. No Partido Trabalhista Britânico, até mesmo a filiação individual de um membro de outra classe foi vetada pelos sindicatos até 1918.
Havia razões de ordem teórica para essa opção. Para Marx, a centralidade dos operários, na condição de atores políticos da mudança, devia-se a duas razões: sua condição de classe explorada no regime, diretamente interessada em sua superação; e sua capacidade, única fora da burguesia, de organizar a produção.
No entanto, havia também razões de ordem prática ao menos tão importantes quanto as teóricas.
Em primeiro lugar, a competição econômica campeava entre os operários, assim como entre os capitalistas, e sua superação era condição indispensável ao aumento da eficiência do conflito contra a classe capitalista. Daí a necessidade de organizar um partido político identificado com a classe que demandasse o voto do trabalhador na condição de trabalhador.
Em segundo lugar, a ausência de um partido desse tipo facilitaria, na sociedade burguesa, a integração dos operários como indivíduos, votando conforme demandas de outra ordem – regionais, religiosas, ou outra qualquer. Por isso era importante demarcar a classe operária da “massa reacionária” constituída pelas demais classes.
Finalmente, o partido voltado para a classe era necessário para superar o viés imediatista e antipolítico dos trabalhadores, sempre interessados no confronto direto com o seu empregador, mas desconfiados do mundo da política.
No entanto, essa concentração classista dos partidos operários teve que ser alterada por imposição do processo eleitoral. Com efeito, a classe operária, contrariamente às previsões de Marx, jamais chegou a constituir a maioria estável da população em qualquer país capitalista. Após seu momento de auge, quando, como vimos, se aproxima da metade da população total, perto da passagem do século, a participação dos operários, no sentido clássico do termo, na população cai constantemente. Em 1968 representavam 25% da população francesa; em 1971, 20% da população belga, para ficar apenas em dois exemplos expressivos.
A economia havia mudado. O crescimento, não antecipado pela teoria, do setor de serviços demandava cada vez mais trabalhadores. A nova legislação, resultado do empenho dos socialistas, fazia aumentar também a importância de estudantes e aposentados na população total. Em suma, a previsão de Marx de uma sociedade no rumo da simplificação da estrutura de classes, com uma burguesia cada vez menor e mais rica, confrontada com uma massa operária majoritária e empobrecida, não se verificara.
A nova situação deixou aos partidos social-democratas uma alternativa difícil. De um lado, era possível preservar a homogeneidade social, a pureza de classe, o que implicava resignar-se à condição de minoria eleitoral. De outro lado, também era possível ultrapassar os limites da classe operária e dirigir o apelo político e eleitoral do partido a outras classes e camadas da população, percebidas como aliadas conjunturais dos operários. A soma dos votos tradicionais dos socialistas com os dos aliados de classe permitia pensar na maioria nas eleições.
É preciso assinalar que esta última alternativa não implica necessariamente, ao menos na percepção de dirigentes e militantes da época, o abandono dos objetivos finais do movimento. Significava apenas reconhecer que, ao contrário da assertiva de Marx, a emancipação dos trabalhadores não seria obra exclusiva dos próprios trabalhadores.
De fato, à medida que a progressão eleitoral dos partidos social-democratas estagnava, a opção pelo pluriclassismo se impôs. Os partidos passaram a dirigir-se ao povo, às classes populares, focalizando sua crítica num pequeno número de grandes capitalistas e especuladores. Os limites da categoria povo eram amplos o suficiente para abarcar perto de 90% da população desses países.
A social-democracia nunca chegou a percentuais similares de votos. Sua estratégia atraiu parte dos membros das classes populares, mas não todos. Paralelamente, parece haver-se estabelecido um círculo vicioso entre o apelo à classe e o apelo ao povo. Quanto mais os partidos modificavam seus discursos para atrair o voto de camponeses, trabalhadores de colarinho branco, funcionários públicos, intelectuais, maior a perda de seus votos operários tradicionais. No que parece ter sido um dos pontos culminantes do processo, a eleição britânica de 1979, 50% dos operários votaram nos conservadores.
A busca da maioria encontrava-se, aparentemente, bloqueada nas duas alternativas eleitorais. A opção classista estava condenada à maioria, dado que a classe operária tendia a perder participação na população total. A opção popular, por sua vez, produzia uma perda de votos antigos que contrabalançava a conquista dos novos.
Mas quais as razões desse fenômeno?
A primeira e mais evidente razão é a concentração em objetivos comuns aos operários e outros integrantes da coalizão. A política popular dirige-se aos interesses da maioria do povo: operários são contemplados, não na sua especificidade de classe, mas como cidadãos de baixa renda, usuários dos serviços públicos, consumidores e contribuintes, por exemplo. Os interesses próprios dos trabalhadores passam a um segundo plano.
Há uma segunda razão, de caráter menos imediato. O discurso da opção popular interpela os eleitores como indivíduos, solicita sua escolha numa arena política neutra, voltada para o bem comum. Esse tipo de apelo enfraquece a identidade de classe e libera os operários a votar conforme as exigências de outros princípios, como região, religião e outros.
Essas questões, no entanto, não foram antecipadas pelas lideranças que encaminharam os partidos social-democratas ao rumo do bloco de classes. Para eles, permanecia a validade do objetivo final do movimento: a abolição da propriedade privada, fonte da irracionalidade e da injustiça presentes na sociedade capitalista. Para eles, a luta por objetivos específicos, de interesse das classes populares, não constituía desvio em relação a essa meta, mas a construção do caminho que levaria a ela. O socialismo como etapa seguinte ao capitalismo era visto como inevitável, e os ganhos do movimento, de fundo popular ou operário, eram irreversíveis e acumulativos. Na expressão de Jaurès, líder do socialismo francês, a transição para a nova sociedade poderia ser comparada à passagem de um navio pela linha do Equador: lenta, inexorável e imperceptível.
A seguir, examinaremos a feição que a social democracia adotou a partir da década de 1930.

O Estado do bem-estar social
É preciso ressaltar ainda que, naquele momento, a social-democracia carecia de uma política econômica própria. Partilhava com os partidos burgueses da crença no padrão-ouro, na necessidade do equilíbrio orçamentário. Mesmo as iniciativas de aumento salarial eram ponderadas com a necessidade de manter o lucro em patamares que garantissem o investimento futuro e a geração de novos empregos. O traço diferencial dos partidos social-democratas estava numa parcialidade distributiva em favor dos operários, seja diretamente, seja pela via popular. As medidas distintivas típicas eram a luta por um salário mínimo, políticas habitacionais, seguro-desemprego, tributação progressiva sobre a renda e a herança. Todas tiveram como resultado final a melhoria das condições de vida dos trabalhadores.
Do marxismo o movimento herdara basicamente os argumentos da crítica ao capitalismo. Propostas efetivas de como proceder para sua superação resumiam-se à transferência da propriedade dos meios de produção para a coletividade: a nacionalização. No entanto, embora o período entre as duas guerras mundiais tenha testemunhado a ascensão de diversos partidos socialistas ao poder, nada se fez, praticamente, no sentido dessa grande diretriz.
Duas razões estariam na origem dessa omissão.
A primeira razão, uma ambiguidade conceitual quanto ao que fazer. Nacionalizar, ou seja, passar o controle para o Estado, ou socializar, entregando a empresa à gestão dos trabalhadores que operam aquela unidade particular de produção? Os partidos dividiram-se nessa questão, alguns enfatizando mais o aspecto planificador da propriedade estatal e outros o componente autogestionário. Aos olhos dos socialistas, contudo, essa última alternativa não poderia ser vista como definitiva, pois solucionava apenas a contradição interna à empresa, entre capitalistas e operários, mas não o conflito entre aquela unidade e o conjunto dos consumidores.
A segunda razão encontra-se no fato de os socialistas haverem assumido o governo na condição de minoria ou na liderança de uma coalizão com outros partidos, contrários à política de nacionalização. Nessa situação, impõe-se a escolha entre dois caminhos. O primeiro é perseguir a nacionalização, o objetivo final, apesar da condição de minoria. A derrota subsequente teria utilidade pedagógica, ensinando às massas a identidade de seus aliados e de seus inimigos, preparando o advento de um governo socialista majoritário. Essa posição foi implementada apenas uma vez, em 1928, na Noruega, por um governo socialista que durou três dias. O segundo caminho é o das reformas, o da mudança do capitalismo a prestações, até o dia em que a maioria se volte para os partidos socialistas e as nacionalizações possam ser efetuadas.
Essa situação de carência de uma teoria econômica específica perdura até a década de 1930. Após a crise de 1929, uma série de políticas anticíclicas é implementada em diversos países. Seu fundamento teórico foi formulado por Keynes, e o caso mais conhecido é o New Deal americano. No entanto, na mesma época, os governos socialistas da Noruega, Suécia e França iniciavam políticas de estímulo a demandas similares.
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Criou-se um novo paradigma, no qual cabia ao Estado gerenciar o nível de demanda, seja mediante uma política de pleno emprego, seja pelo gasto público direto em obras de qualquer espécie. Aceitava-se um certo montante de déficit público, a economia assim aquecida saía da crise e iniciava-se um novo ciclo expansionista. No momento posterior, de prosperidade, procurava-se o equilíbrio das contas públicas.
A afinidade entre keynesianismo e social-democracia foi imediata e duradoura. Essa perspectiva permitia pensar a congruência entre os interesses particulares dos trabalhadores e os interesses gerais da sociedade. Aumentar a renda dos trabalhadores era a receita para fazer a economia crescer e beneficiar a todos. Os interesses populares, de todas as classes e grupos aliados, aparentavam uma afinidade, até então oculta, com os interesses da classe operária.
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A assimilação do enfoque keynesiano à política econômica dos socialistas no poder marca o início do que se convencionou chamar Estado do bem-estar social. Não se trata mais de implementar reformas pontuais enquanto se aguarda o momento propício à nacionalização massiva. Criou-se, na verdade, um novo modelo, com a ambição de domesticar o capitalismo, em benefício de trabalhadores e consumidores. O papel ativo que o Estado passou a ter permitiria evitar a crise econômica e compensar os danos sociais do sistema, sem necessidade da nacionalização completa da atividade econômica.
O modelo, de grande aplicação na Europa, após a segunda guerra, apoiava-se em três pilares. Até esse momento, convém lembrar, esses partidos dirigiam-se prioritária ou mesmo exclusivamente à classe operária. No Partido Trabalhista Britânico, até mesmo a filiação individual de um membro de outra classe foi vetada pelos sindicatos até 1918.
Em primeiro lugar, a presença do Estado como agente econômico, como provedor dos insumos fundamentais à economia, a preços módicos. Tornou-se comum o monopólio público em setores como crédito, aço, carvão, energia, transportes e comunicações. Todos eles estratégicos e de baixa rentabilidade para o capital privado. Entre os poucos casos de presença estatal em indústrias de bens de consumo, cabe citar, por sua relevância, a produção de automóveis.
Em segundo lugar, a promoção de políticas anticíclicas de prevenção e regulação de crises econômicas. Aqui o Estado age como controlador da demanda, normalmente suprindo-a, mediante geração direta ou indireta de postos de trabalho.
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O terceiro pilar é a construção de uma rede de proteção que pretendia nada menos que a segurança absoluta para todo cidadão, “do berço ao túmulo”. Integram essa rede as políticas de saúde, previdência, assistência social, habitação, transporte, educação, assim como todas as demais que o Estado utilize para o incremento da segurança e do bem-estar de sua população.
A rede de segurança tem o objetivo de sanar as sequelas sociais do capitalismo. A presença do Estado na produção e na regulação do mercado imprimiria racionalidade a esse espaço, evitando a crise, ao menos a crise prolongada. Os capitalistas seriam induzidos a investir os seus lucros nos setores considerados pelo Estado como importantes para a eficiência do sistema. No limite, operariam como funcionários da coletividade.
O modelo supõe a possibilidade de os trabalhadores fazerem uso do Estado, em que cada pessoa representa um voto, para corrigir as distorções do mercado, esfera na qual o peso nas decisões é proporcional ao montante de recursos que cada um possui. A política prevaleceria, garantindo a justiça e a eficiência que o mercado seria incapaz de prover por períodos continuados.
A experiência da social-democracia na aplicação desse modelo trouxe à tona suas limitações estruturais. Na verdade, equidade e eficiência não são objetivos sempre compatíveis, mas muitas vezes até antagônicos. Em casos de tensões e conflitos aparece a principal barreira limitadora: a dependência da disposição do capitalista para o investimento.
O modelo depende do crescimento econômico, este do investimento e este último, por sua vez, do lucro e da expectativa de sua continuidade. Na hipótese de resistência ou desconfiança dos capitalistas, estes, a rigor, não precisariam sequer conspirar contra o governo: bastar-lhes-ia deixar de investir, para provocar em pouco tempo uma crise desestabilizadora, de consequências fatais para o governo.
Esse o dilema que atormenta os governos socialistas empenhados numa transição sistêmica, na superação do capitalismo por uma nova ordem econômica e social. Qualquer passo no sentido da nacionalização, da restrição dos mercados, retira os capitalistas da base de apoio ao governo e gera um momento de desorganização da produção. Essa crise tem seu ônus, em empregos e salários, e a classe trabalhadora não se mostrou historicamente disposta a suportá-los, mesmo com o aceno de benefícios futuros até mais substanciais.
A crise é inevitável nessa situação. Um governo eleito com promessas de mudanças deve satisfazer as demandas dos diversos grupos de apoio a que deve a vitória. Esse leque de demandas pode ser atendido por um número limitado de meios: distribuição direta de renda, uso da capacidade produtiva ociosa, gasto das reservas internacionais e redução da taxa de lucros. Segundo Przeworski, os três primeiros sempre se mostrarão insuficientes, de maneira que a pressão no sentido da redução da taxa de lucros é inevitável.
Nesse momento ocorre a reação empresarial. Obrigados pela instância política a manter salários e empregos em montante maior que o necessário, aumentam seus preços, gerando inflação. Caso se imponham controles diretos sobre os preços, cessa a produção e surge uma situação de escassez. Processos com esse roteiro aproximado observaram-se na França, em 1936; em Portugal, na Revolução dos Cravos; e no Chile de Allende.
A conclusão do autor é da impossibilidade da mudança de sistema por meios democráticos. A perda inicial que os trabalhadores experimentam determina a retirada de seu apoio ao governo partidário da mudança, deixando-o debilitado para enfrentar com sucesso a reação conservadora. A melhor solução para os trabalhadores seria persistir no compromisso social-democrata, assegurar os ganhos possíveis em troca da renúncia à revolução social. Afinal, somente esse modelo assegurou, historicamente, a convivência entre capitalismo e democracia.
Ao estudar o histórico e as características principais da social-democracia, detivemo-nos nas opções fundamentais que levaram, com o tempo, a sua distinção em relação à corrente socialista tradicional. Em seguida, discutimos as características principais do produto de engenharia política que se associou à social-democracia a partir da década de 1930 e, principalmente, no pós-guerra: o conjunto de políticas econômicas e sociais que veio a ser conhecido como Estado do bem-estar social.
No próximo módulo vamos abordar as bases que tornaram possível o compromisso que é esse tipo de estado: o Estado do bem-estar social.

Esse material é compilado dos arquivos do Curso: “Doutrina Política. Social Democracia”, do Instituto Legislativo Brasileiro - Senado Federal.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A necessidade da politização do cidadão



Por Odemir Silva

 

No seu livro “Introdução à ciência política”, Darcy Azambuja deixa claro que a ciência política serve, ao mesmo tempo, “para compreender a sociedade, para entender a política e para auxiliar a organizar a própria política, ao dar bases para a ação e a legislação”. Se estivermos condenados à vida em sociedade, logo, à presença da política, poucas ciências serão mais profundamente úteis.
Platão e Aristóteles são considerados os “pais” da ciência política. Platão [...] procura construir o Estado ideal, onde os governantes seriam filósofos e os filósofos seriam governantes. Aristóteles [...] também procura descrever o bom governo, mas parte da observação de realidade política [...] A idade Média trouxe a contribuição d pensamento cristão [...] Santo Agostinho e Santo Tomás, além de outros teólogos católicos, enunciaram teorias e observações que a ciência política não pode ignorar [...].  

 

Maquiavel [...] expõe a “arte de conquistar, manter e exercer o poder”; não pregou como geralmente se supõe a imoralidade em política, mas analisou a realidade e tirou as conclusões que lhe pareceram acertadas. Montesquieu [...] usou a observação sistemática, histórica e comparativa, e divulgou o princípio da divisão do poder, inspirado em Locke.Tocqueville e August Comte [...] são os dois maiores nomes do século XIX. Daí por diante, as obras sobre política são numerosíssimas, com orientações e métodos diversos. Depois da Primeira Guerra Mundial, e, sobretudo de 1945 em diante, a ciência política inicia a fase positiva e se oficializa nas universidades. Rica e variada atividade, na teoria e na pesquisa, renova e amplia o campo do conhecimento político.
Segundo Aristóteles “O homem” é por natureza, animal político. Tal afirmação não significa apenas a necessária socialização da vida tendo em vista assegurar a proteção mútua dos indivíduos e a cooperação no trabalho, porque isso, também os animais podem fazer, portanto dizer que o homem é “um animal político” significa que, antes de ser uma associação econômico-militar, a associação política, isto é, o Estado, é de natureza ético-jurídica e a finalidade da política consiste em organizar a sociedade de tal modo que nela seja possível a cada cidadão viver uma vida virtuosa e feliz e não apenas materialmente confortável.
Interessante que a existência humana é essencialmente política porque o homem é dotado não só de linguagem, mas principalmente de logos. A linguagem não é a simples capacidade de expressar pensamentos, desejos ou sentimentos que, como tal, os animais também possuiriam. Para Aristóteles ela é antes de tudo logos no sentido de discernimento. Este consiste sobretudo na capacidade de distinguir racionalmente o útil do inútil, o bem do mal, o verdadeiro do falso, a justiça da injustiça e de chegar a um consenso quanto a essas noções.

 

O logos designa assim o fundamento da capacidade prática de se orientar em um mundo histórico e contingente, libertando-se das paixões e dos interesses pessoais, chegando a um acordo com os outros mediatizado pela visão da verdade, isto é, particularmente, do verdadeiro bem. Por essa via a política se dá como uma prática racionalmente orientada para a construção e manutenção do bem comum e, como tal, exige certa ciência. A verdadeira sabedoria, portanto, de ordem prática, é um saber fazer o bem, e a política diz respeito ao bem último que convém ao homem conhecer e buscar.
Portanto, o ser humano que vive em busca da felicidade precisará da filosofia que se encontra obrigada a definir que tipo de sabedoria seria necessário desenvolver para determinar esse bem e as formas de alcança-lo, no plano individual essa sabedoria se chama ética, no plano social, política. Que determina, entre os saberes, quais são os necessários para as cidades e o tipo de sabedoria que cada classe de cidadão deve possuir.

 

Sendo assim a política “se serve das outras ciências práticas, legislando sobre o que é preciso fazer e do que é preciso abster-se; assim sendo, o fim buscado por ele deve englobar os fins de todas as outras, donde se concluir que o fim da política é o bem propriamente humano”.

Continua...









quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Por que o Socialismo? – Por Albert Einstein

Por Odemir Silva
Por que o Socialismo? ¹
Será aconselhável para quem não é especialista em assuntos econômicos e sociais exprimir opiniões sobre a questão do socialismo? Eu penso que sim, por uma série de razões.
Consideremos antes de mais nada a questão sob o ponto de vista do conhecimento científico. Poderá parecer que não há diferenças metodológicas essenciais entre a astronomia e a economia: os cientistas em ambos os campos tentam descobrir leis de aceitação geral para um grupo circunscrito de fenômenos, de modo a tornar a interligação destes fenômenos tão claramente compreensíveis quanto possível. Mas, na realidade, estas diferenças metodológicas existem.
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A descoberta de leis gerais no campo da economia torna-se difícil pela circunstância de que os fenômenos econômicos observados são frequentemente afetados por muitos fatores, e esses são muito difíceis de serem avaliados separadamente. Além disso, a experiência acumulada desde o início do chamado período civilizado da história humana tem sido – como é bem conhecido – largamente influenciada e limitada por causas que não são, de forma alguma, exclusivamente econômicas por natureza. Por exemplo; a maioria dos principais Estados da história devem a sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram-se, legal e economicamente, como a classe privilegiada do país conquistado. Monopolizaram as terras e nomearam um clero de entre as suas próprias fileiras. Os sacerdotes, que controlavam a educação, tornaram a divisão de classes da sociedade numa instituição permanente e criaram um sistema de valores segundo o qual as pessoas se têm guiado desde então, até grande medida de forma inconsciente, no seu comportamento social.
Mas a tradição histórica é, por assim dizer, coisa do passado; em lado nenhum ultrapassamos de fato o que Thorstein Veblen² chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os fatos econômicos observáveis pertencem a essa fase, e mesmo as leis que podemos deduzir a partir deles não são aplicáveis a outras fases. Uma vez que o verdadeiro objetivo do socialismo é precisamente ultrapassar e ir além da fase predatória do desenvolvimento humano, a ciência econômica no seu atual estado não consegue dar grandes esclarecimentos sobre a sociedade socialista do futuro.
Segundo, o socialismo é dirigido para um fim sócio ético. A ciência, contudo, não pode criar fins e, muito menos, incuti-los nos seres humanos; quando muito, a ciência pode fornecer os meios para atingir determinados fins. Mas os próprios fins são concebidos por personalidades com ideais éticos elevados e – se estes ideais não nascerem já votados ao insucesso, mas forem vitais e vigorosos – adaptados e transportados por aqueles muitos seres humanos que, semi-inconscientemente, determinam a evolução lenta da sociedade.
Por estas razões, devemos precaver-nos para não sobrestimarmos a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos assumir que os peritos são os únicos que têm o direito a expressarem-se sobre questões que afetam a organização da sociedade.
Inúmeras vozes afirmam há algum tempo que a sociedade humana está  passando por uma crise, que a sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico desta situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou mesmo hostis em relação ao grupo, pequeno ou grande, a que pertencem. Para ilustrar o meu pensamento, permitam-me que exponha aqui uma experiência pessoal. Falei recentemente com um homem inteligente e cordial sobre a ameaça de outra guerra, que, na minha opinião, colocaria em sério risco a existência da humanidade, e comentei que só uma organização supranacional ofereceria proteção contra esse perigo. Imediatamente o meu visitante, muito calma e friamente, disse-me: “Porque se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”
Tenho a certeza de que há tão pouco tempo como um século atrás ninguém teria feito uma afirmação deste tipo de forma tão leve. É a afirmação de um homem que tentou em vão atingir um equilíbrio interior e que perdeu mais ou menos a esperança de ser bem sucedido. É a expressão de uma solidão e isolamentos dolorosos de que sofre tanta gente nos dias atuais. Qual é a causa? Haverá uma saída?
É fácil levantar estas questões, mas é difícil respondê-las com certo grau de segurança. No entanto, devo tentar o melhor que posso, embora esteja consciente do fato de que os nossos sentimentos e esforços são muitas vezes contraditórios e obscuros e que não podem ser expressos em fórmulas fáceis e simples.
O homem é, simultaneamente, um ser solitário e um ser social. Enquanto ser solitário, tenta proteger a sua própria existência e a daqueles que lhe são próximos, satisfazer os seus desejos pessoais, e desenvolver as suas capacidades inatas. Enquanto ser social, procura ganhar o reconhecimento e afeição dos seus semelhantes, partilhar os seus prazeres, confortá-los nas suas tristezas e melhorar as suas condições de vida. Apenas a existência destes esforços diversos e frequentemente conflituosos respondem pelo caráter especial de um ser humano, e a sua combinação específica determina até que ponto um indivíduo pode atingir um equilíbrio interior e pode contribuir para o bem-estar da sociedade. É perfeitamente possível que a força relativa destes dois impulsos seja, no essencial, fixada por herança. Mas a personalidade que finalmente emerge, é largamente formada pelo ambiente em que um indivíduo acaba por se descobrir a si próprio durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que cresce, pelas tradições dessa sociedade, e pelo apreço por determinados tipos de comportamento. O conceito abstrato de “sociedade” significa para o ser humano individual o conjunto das suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas de gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar, sentir, lutar e trabalhar sozinho, mas depende tanto da sociedade – na sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele, ou compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a “sociedade” que lhe fornece comida, roupa, casa, instrumentos de trabalho, língua, formas de pensamento, e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida foi tornada possível através do trabalho e da concretização dos muitos milhões de pessoas, passados e presentes, que estão todos escondidos atrás da pequena palavra “sociedade”.
É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um fato da natureza que não pode ser abolido – tal como no caso das formigas e das abelhas. No entanto, enquanto todo o processo de vida das formigas e abelhas é reduzido, ao mínimo pormenor, por instintos hereditários rígidos, o padrão social e as inter-relações dos seres humanos são muito variáveis e susceptíveis de mudança. A memória, a capacidade de fazer novas combinações, o dom da comunicação oral tornaram possíveis os desenvolvimentos entre os seres humanos que não são ditados por necessidades biológicas. Estes desenvolvimentos manifestam-se nas tradições, instituições e organizações; na literatura; nas obras científicas e de engenharia; nas obras de arte. Isto explica a forma como, num determinado sentido, o homem pode influenciar a sua vida através da sua própria conduta, e como neste processo, o pensamento e a vontade conscientes, podem desempenhar um papel.
O homem adquire a origem, através da hereditariedade, uma constituição biológica que devemos considerar fixa ou inalterável, incluindo os desejos naturais que são característicos da espécie humana. Além disso, durante a sua vida, adquire uma constituição cultural que adota da sociedade através da comunicação e através de muitos outros tipos de influências. É esta constituição cultural que, com o passar do tempo, está sujeita à mudança e que determina, em larga medida, a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna ensina-nos, através da investigação comparativa, das chamadas culturas primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode divergir grandemente, dependendo dos padrões culturais dominantes e dos tipos de organização que predominam na sociedade. É nisto que aqueles que lutam por melhorar a sorte do homem podem fundamentar as suas esperanças: os seres humanos não estão condenados, devido à sua constituição biológica, a exterminarem-se uns aos outros ou a ficarem à mercê de um destino cruel e auto infligido.
Se nos interrogarmos sobre como deveria mudar a estrutura da sociedade e a atitude cultural do homem para tornar a vida humana o mais satisfatória possível, devemos estar permanentemente conscientes do fato de que há determinadas condições que não podemos alterar. Como mencionado anteriormente, a natureza biológica do homem, para todos os objetivos práticos, não está sujeita à mudança. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que vieram para ficar. Em populações com fixação relativamente densa e com bens indispensáveis à sua existência continuada, é absolutamente necessário haver uma extrema divisão do trabalho e um aparelho produtivo altamente centralizado. Já lá vai o tempo – que, olhando para trás, parece ser idílico – em que os indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. É apenas um pequeno exagero dizer-se que a humanidade constitui, mesmo atualmente, uma comunidade planetária de produção e consumo.
Cheguei agora ao ponto em que vou indicar sucintamente o que para mim constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência relativamente à sociedade. Mas ele não sente esta dependência como um bem positivo, como um laço orgânico, como uma força protetora, mas mesmo como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência econômica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egotistas da sua composição estão constantemente a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza, mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, seja qual for a sua posição na sociedade, sofrem este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egotismo, sentem-se inseguros, sós, e privados do gozo ingênuo/infantil, simples e não sofisticado da vida. O homem pode encontrar sentido na vida, curta e perigosa como é, apenas dedicando-se à sociedade.
A anarquia econômica da sociedade capitalista, como existe atualmente, é, na minha opinião, a verdadeira origem do mal. Vemos perante nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros lutam incessantemente para despojar os outros dos frutos do seu trabalho coletivo – não pela força, mas, em geral, em conformidade com as regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante compreender que os meios de produção – ou seja, toda a capacidade produtiva que é necessária para produzir bens de consumo, bem como bens de equipamento adicionais – podem ser legalmente, e na sua maior parte são, propriedade privada de indivíduos.
Para simplificar, no debate que se segue, chamo “trabalhadores” a todos aqueles que não partilham a posse dos meios de produção – embora isto não corresponda exatamente à utilização habitual do termo. O detentor dos meios de produção está em posição de comprar a mão-de-obra. Ao utilizar os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. A questão essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que recebe, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe é determinado não pelo valor real dos bens que produz, mas pelas suas necessidades mínimas e pelas exigências dos capitalistas para a mão-de-obra em relação ao número de trabalhadores que concorrem aos empregos. É importante compreender que, mesmo em teoria, o pagamento do trabalhador não é determinado pelo valor do seu produto.
O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é verdade, uma vez que os membros dos órgãos legislativos são escolhidos pelos partidos políticos, largamente financiados ou influenciados pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses das seções sub-privilegidas da população. Além disso, nas condições existentes, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil e mesmo, na maior parte dos casos, completamente impossível, para o cidadão individual, chegar a conclusões objetivas e utilizar inteligentemente os seus direitos políticos.
Assim, a situação predominante numa economia baseada na propriedade privada do capital caracteriza-se por dois principais princípios: primeiro, os meios de produção (capital) são privados e os detentores utilizam-nos como acham adequado; segundo, o contrato de trabalho é livre. Claro que não há tal coisa como uma sociedade capitalista pura neste sentido. É de notar, em particular, que os trabalhadores, através de longas e duras lutas políticas, conseguiram garantir uma forma algo melhorada do “contrato de trabalho livre” para determinadas categorias de trabalhadores. Mas tomada no seu conjunto, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.
A produção é feita para o lucro e não para o uso. Não há nenhuma disposição em que todos os que possam e que iram trabalhar estejam sempre em posição de encontrar emprego; existe frequentemente um “exército de desempregados”. O trabalhador está constantemente com medo de perder o seu emprego. Uma vez que os desempregados e os trabalhadores mal pagos não fornecem um mercado rentável, a produção de bens de consumo é restrita e tem como consequência a miséria. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego e não no alívio do fardo da carga de trabalho para todos. O motivo lucro, em conjunto com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais graves. A concorrência sem limites conduz a um enorme desperdício do trabalho e a esse enfraquecimento consciência social dos indivíduos que mencionei anteriormente.
Considero este enfraquecimento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. É incutida uma atitude exageradamente competitiva no aluno, que é formado para venerar o sucesso de aquisição como preparação para a sua futura carreira.
Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males, nomeadamente através da constituição de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educativo orientado para objetivos sociais. Nesta economia, os meios de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados de forma planeada. Uma economia planeada, que adeque a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que podem trabalhar e garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas, tentaria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelo seu semelhante em vez da glorificação do poder e do sucesso na nossa atual sociedade.
No entanto, é necessário lembrar que uma economia planeada não é ainda o socialismo. Uma tal economia planeada pode ser acompanhada pela completa opressão do indivíduo. A concretização do socialismo exige a solução de problemas sócio-políticos extremamente difíceis; como é possível, perante a centralização de longo alcance do poder econômico e político, evitar a burocracia de se tornar toda-poderosa e vangloriosa? Como podem ser protegidos os direitos do indivíduo e com isso assegurar-se um contrapeso democrático ao poder da burocracia?
A clareza sobre os objetivos e problemas do socialismo é da maior importância na nossa época de transição. Visto que, nas atuais circunstâncias, a discussão livre e sem entraves destes problemas surge sob um tabu poderoso, considero a fundação desta revista como um serviço público importante.
¹- Artigo escrito por Albert Einstein especialmente para o primeiro número da revista norte americana Monthly Review, Nova Iorque, Maio de 1949. Posteriormente, foi publicado em maio de 1998 para comemorar os cinquenta anos do primeiro exemplar do Monthly Review.
² – Veblen, Thorstein Bunde (1857-1929), economista e sociólogo norte-americano, segundo o qual as instituições da economia são influenciadas por dois instintos de base, o instinto artesão e o instinto predador. Pelo primeiro, o homem enriquece-se pelo seu trabalho, enquanto pelo segundo procura desapossar os outros dos seus bens e dos resultados do seu trabalho.
Tradução(inglês-Português) de Ademir Fábio Quinot Ströher.
Fonte Original em Inglês: Monthly Review

O que fazer para seu filho não se tornar racista

Por Odemir Silva

Po Bronson e Ashley Merryman, autores do livro ‘Filhos – Novas Ideias sobre Educação’, explicam o que você não deve fazer se o seu maior medo é ter um filho racista
Se o seu maior medo é ter um filho racista, eis o que você não deve fazer: dizer que todo mundo é igual.
Fingir que não existem diferentes cores de pele, etnias e religiões pode ter o efeito contrário do que você imaginava.
Deixa a criança confusa – afinal, ela vê que existem cores diferentes.
E cria seus próprios padrões de superioridade dentro daquela pequena cabeça abarrotada de conceitos que não consegue entender.
É o que dizem Po Bronson e Ashley Merryman, no livro Filhos – Novas Ideias sobre Educação:
“É tentador acreditar que, pelo fato da nossa geração ser tão diversa, as crianças de hoje vão crescer sabendo como lidar com gente de todas as raças. Mas muitos estudos mostram que isso é mera fantasia.”
Uma das pesquisas americanas em que os autores se baseiam mostra que mesmo em escolas modernas, com gente de várias origens, apenas de 8% a 15% dos estudantes consideram seu melhor amigo alguém de outra raça.
Isso, segundo os autores, poderia ser resolvido de forma simples: conversando desde cedo sobre o assunto.
Explicando, por exemplo, que existem peles claras e outras escuras, mas que pessoas com ambas as cores dão ótimos médicos ou engenheiros.
Outra pesquisa mostra que 75% dos pais que se consideram brancos nunca falam sobre raça com os filhos.
E quando começam, pode ser tarde demais: depois dos 8 anos é bem mais difícil alterar preconceitos.
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Quem lê livros não só é mais culto, mas também é o melhor tipo de pessoa para se apaixonar

Por Odemir Silva
Você provavelmente já conhece os inúmeros benefícios que a leitura pode trazer para sua vida.
Mas e se eu te falar que a experiência é tão significante que podemos até mesmo comprovar, com argumentos científicos, que as pessoas que leem são as melhores pessoas para se viver uma paixão?
Foi exatamente isso que a escritora norte-americana Lauren Martin fez ao publicar, no site doElite Daily, o seu artigo “Why Readers, Scientifically, Are The Best People To Fall In Love With” (em português: “Por que os leitores, cientificamente, são as melhores pessoas para se apaixonar”).
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Para te ajudar a entender o porquê dessa afirmação, separamos os melhores trechos do texto de Lauren. Confira.

“Você já leu um livro até o fim? Realmente até o fim? Capa a capa. Fechou-o com aquela sensação de voltar lentamente à realidade? Você suspira fundo e fica ali, sentado. Com o livro em suas mãos…”
“É como se apaixonar por um estranho que você nunca verá novamente. O desejo e a tristeza que sente por um caso de amor que acabou dói, mas ao mesmo tempo você se sente saciado, cheio pela experiência, a conexão, a variedade que surge após digerir outra alma. Você se sente alimentado, mesmo que por pouco tempo.”
É assim, comparando as emoções vividas em uma paixão com o processo de terminar um livro, que a autora começa a explicação para a sua afirmação. Mas a “teoria” também tem base científica.
De acordo com estudos de 2006 e 2009, publicados por Raymond Mar, psicólogo da Universidade de York, do Canadá, e por Keith Oatley, professor de psicologia cognitiva na Universidade de Toronto, quem é um profundo leitor de ficção possui maior capacidade de empatia e de desenvolver a chamada “teoria da mente”, que é a habilidade de aceitar outras opiniões, crenças e interesses, além de seus próprios.
Ou seja, os leitores são mais capazes de considerar outras ideias sem rejeitá-las e, mesmo assim, manter as suas próprias. Para ter essa característica pessoal, a autora acredita que é preciso ter uma boa “diversidade de experiências sociais” e a falta dela é provavelmente a razão para seu “último companheiro ser tão narcisista”.
A explicação para o leitor ser mais desenvolvido na “teoria da mente” é a de que ele vivencia experiências através de outros olhos, vendo o mundo de outra perspectiva e absorvendo sabedoria de cada uma delas.
“Eles aprenderam como é ser uma mulher, e um homem. Eles sabem como é ver alguém sofrer. Eles são maduros, sábios.”
Para reforçar a teoria, a autora ainda se baseia em um estudo de 2010, também de Raymond Mar, que diz que quanto mais histórias foram lidas para uma criança, mais aguçada é a “teoria da mente” dela. A criança torna-se mais sábia, adaptável e compreensiva.
“Porque ler é algo que molda você e aumenta o seu caráter. Cada triunfo, lição e momento crucial da vida do protagonista se tornam seu.”
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Confira os principais argumentos

“Eles não vão falar com você. Eles vão conversar com você.”

Segundo o artigo, os leitores escreverão cartas e versos. São eloquentes no bom sentido, não dão respostas simples, mas apresentam pensamentos profundos e teorias intensas, encantando com o conhecimento de palavras e ideias.
“Faça um favor a si mesmo e namore alguém que realmente saiba como usar a língua.”

“Eles não apenas te entendem. Eles te compreendem.”

De acordo com o psicólogo David Comer Kidd, da New School for Social Research, “O que os autores fazem de maravilhoso é transformar você no escritor. Na literatura de ficção, a incompletude das personagens faz com que sua mente tente entender a mente de outros”. Com isso, os leitores desenvolvem a capacidade da empatia. Eles podem não concordar com você, mas vão tentar ver as coisas do seu ponto de vista.
“Você deveria se apaixonar apenas por alguém que consiga ver sua alma. Deve ser alguém que não apenas te conhece, mas que te compreenda completamente.”

“Eles não são apenas intelectuais. São sábios.”

“Ser intelectual demais pode ser desagradável, mas ser sábio é algo cativante.”
Quem é que não gosta de ter um bate-papo culto e sempre aprender alguma coisa? Se apaixonar por um leitor irá melhorar o nível das conversas. Os leitores profundos são mais cultos devido ao maior vocabulário, melhor memória e pela capacidade de detectar padrões.
“Se você namora alguém que lê, então você também viverá milhares de vidas diferentes.”

Espécie em extinção

Se você gostou dos argumentos e já não vê a hora de procurar sua paixão, é preciso se apressar, pois a autora acredita que os chamados “profundos leitores” estão acabando no mundo, já que as pessoas muitas vezes apenas “passam o olho” ao invés de realmente ler.
“Se você ainda procura por alguém que te complete, que preencha o vazio em seu coração solitário, procure por essa raça que está se extinguindo. Você os encontrará em cafeterias, parques e no metrô.”
“Você os verá com mochilas, bolsas e maletas. Eles serão curiosos e sensíveis, e você saberá nos primeiros minutos de conversa com eles.”